sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Erros, erros grosseiros e projeções de PIB

Semana passada coloquei a tabelinha abaixo no Twitter, mostrando como a mediana das projeções dos economistas que contribuem com a pesquisa Focus, do Banco Central, costuma errar a projeção do PIB com um ano de antecedência por muito (1,6 ponto percentual, na média do período):


Também semana passada, a Economist publicou uma matéria sobre o mesmo assunto, avaliando o desempenho das projeções feitas pelo FMI. Os resultados também não são muito animadores, como se pode ver no gráfico:


Se projeções e previsões, no geral, erram tão feio, por que ainda há um mercado para elas? Para Tim Harford, projeções são como Pringles: "nobody thinks that there’s any great virtue in them but, offered with the fleeting pleasure of consuming them, we find it hard to resist." Por que? As teorias de Harford:

Possibility one is that the moment we hear a forecast, we imagine it happening. It then becomes a believable outcome and one that is easy to call to mind in the future. The scenario that we imagine looms large in our minds; other scenarios, equally plausible, fade to the background. As a result, we can be sceptical of forecasts in general yet still hooked by a particular one. 
(...) 
Possibility two is that forecasts offer us a lazy way to understand a complex world. The background to the conflict in Syria is complicated. So is Chinese politics. So, too, is the evolution of the Japanese economy. Trying to understand what is going on in any of these places requires an investment of time and attention that most of us are not willing to make. Wise heads at this newspaper could explain the intricacies to you or to me for hours yet barely have begun to do the topic justice.

Sobre o assunto, ainda quero ler o Superforecasting, sobre o Good Judgment Project.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Os Livros de 2015

Porque pelo menos espasmos anuais são precisos pra não declarar o óbito do blog. O que li de bom neste longo ano:

Economia, mercados & afins:

How to be Human, Though an Economist”, Deirdre McCloskey. Coletânea de textos curtos; funciona como se você, economista, tivesse uma tia mais velha cheia de manias e implicâncias que, por acaso, é uma brilhante economista e gosta de dar palpites sobre a vida, carreira e o que ler e não ler. De lá saiu a recomendação do ótimo “The Educated Imagination” (abaixo), entre muitas outras.

The Plundered Planet”, Paul Collier. Melhor livro que li para o curso do Francisco Monaldi. Muito bom para entender como funciona e como deveria funcionar a exploração de commodities.

The Drunkard’s Walk”, Leonard Mlodinow. Ótimo como breve história do estudo da probabilidade e para mostrar como subestimamos o papel do acaso (nesta linha, meu favorito continua sendo o “Fooled by Randomness”—desculpa aí, Samer).

Seeing Like a State”, James Scott. Devia ser leitura obrigatória no primeiro semestre de qualquer mestrado em administração ou política pública. O inferno e os governos estão cheios de boas intenções que fizeram água. Se um dia eu estiver com esse livro e encontrar o Jeffrey Sachs (calculem aí a probabilidade), dou-lhe uma boa livrada.

Micromotives and Macrobehavior”, Thomas Schelling. Ler Schelling é acompanhar o raciocínio de alguém com uns 100 pontos a mais de QI que você, mas que se dá ao trabalho de explicar o que está pensando de forma cristalina para os mortais. Se esse livro fosse lançado hoje, viria com um site para visualizar os modelos dinâmicos, algo que fica meio maçante no papel.

Economic Rules”, Dani Rodrik. Economia como uma coleção de modelos, ou uma defesa sutil e apaixonada do nosso ofício lúgubre.

Por Que o Brasil Cresce Pouco?”, Marcos Mendes. Ainda que a tese principal (que a combinação de democracia e alta desigualdade gera um ambiente que retarda o crescimento) ainda precise de refinamento e evidências mais robustas, é um trabalho de grande fôlego, certamente referência para um assunto de extrema importância.


Temas menos mundanos:

Cinquenta Anos Esta Noite”, José Serra. Serra é um dos Forrest Gumps da nossa política, e tem a mão surpreendentemente leve nessa biografia que merece continuações até os dias de hoje.

My Struggle: Book 1”, Karl Ove Knausgaard. Tem um monte de motivos pra não se gostar desse livro, mas pra mim vale pelos conflitos pais x filhos. Em breve encaro o segundo volume, que dizem ser melhor.

The Educated Imagination”, Northrop Frye. Indicado pela tia McCloskey, sobre a importância de estudar e conhecer literatura, além de só ir acumulando livros lidos. Me fez querer ler a Bíblia de cabo a rabo.

Ainda Estou Aqui”, Marcelo Rubens Paiva. “Feliz Ano Velho” é “o” livro da minha
adolescência; este serve como uma continuação daquela história e um documento de um caso bárbaro, covarde e completamente impune de tortura por conta dos nossos militares. E, claro, é um belo tributo à mãe do autor.

Ficção:

The Story of a New Name”, “Those Who Leave and Those Who Stay” e “The Story of the Lost Child”, Elena Ferrante. As Novelas Napolitanas de Ferrante são o equivalente literário àquelas séries de 12 horas que você devora em menos de uma semana. 1.600 páginas que voam, não sem deixar um rastro de emoções e identificação.

Red Plenty”, Francis Spufford. Um dos livros favoritos da Diane Coyle, mistura realidade e fantasia durante o auge e o começo da decadência do socialismo soviético. Um dos personagens é Leonid Kantorovich, Nobel de Economia de 1975.

O Estrangeiro”, Albert Camus. Não, nunca tinha lido. Estou curioso para ler o recente “The Meursault Investigation”, a história contada pelo irmão do árabe morto.

Barba Ensopada de Sangue”, Daniel Galera. História boa e bem escrita, precisa mais do quê?

A Chave Estrela”, Primo Levi. Levi é dos meus autores favoritos. Se quiser dar um belo presente de Natal para um amigo economista, bêbado e protokeynesiano, acabou de sair, nos EUA, uma edição lindona das obras completas dele.

The Goldfinch”, Donna Tartt. Perde quando desanda pra thriller e podia ter umas 200 páginas a menos, mas ainda muito bom. Vai virar filme, supostamente.

Slaughterhouse-Five”, Kurt Vonnegut. So it goes.

Submissão”, Michel Houllebecq. Na verdade não gostei—tenho pouca paciência para as picuinhas da academia francesa—mas, estranhamente, fiquei com vontade de reler.


Quadrinhos:

O Árabe do Futuro”, Riad Sattouf. Ótima narrativa de uma infância vivida entre França, Líbia (quando ainda havia esperança com Gaddafi) e Síria (quando ainda havia Síria). Vai ter continuação.



Uma Metamorfose Iraniana”, Maya Neyestani. Parece uma versão real e ainda mais cruel do ótimo “A Brincadeira”, do Milan Kundera. Lindamente desenhado.

Vida de Prástico”, Ricardo Coimbra. Coimbra é dos melhores herdeiros do esculacho de Angeli & companhia.


Tudo que li em 2015 está no Goodreads. Minha meta literária pro ano que vem é ler pelo menos um clássico por mês. Feliz Natal, caros leitores!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O tamanho do buraco na economia brasileira

Postei alguns desses gráficos no Twitter e pareceu uma boa ideia juntá-los em um mesmo lugar (ao menos serve para tirar o blog da dormência--espero voltar ainda este ano com os livros, discos e filmes de 2015):


  • O crescimento real do PIB nos 4 anos terminados em 2016 deve ser o pior para períodos similares desde 1932 (na esteira da Grande Depressão). Desde 1908, apenas em 4 ocasiões o PIB acumulado em 4 anos caiu:
  • Se de fato não houver recuperação até o final do ano que vem, a economia brasileira estará em recessão por 13 trimestres consecutivos. A trajetória é bem distinta de recessões seguidas de recuperação em "V" (como Argentina, depois da crise de 2001 e Coreia do Sul, depois da crise de 1997) e se parece bastante com a Espanha pós-crise de 2008. Se há algum consolo é que ainda passamos longe da queda livre pela qual a Grécia passou. A comparação negativa é que a Argentina se recuperou de uma queda brutal no PIB (mais de 16%) mais rapidamente do que estamos nos recuperando. Nessa comparação, o choque sai-se melhor do que o gradualismo negacionista.

Com este desempenho, a recessão atual não encontra paralelo na história do Brasil Republicano. Entre 2014 e 2016, o PIB terá recuado mais de 6%, quase 2% abaixo do observado na recessão mais severa até então — a da crise de 1929. O pior, no entanto, é o que segue: a retomada, segundo a projeção de consenso, será muito mais lenta do que em qualquer episódio de recessão no Brasil, bem mais letárgica do que a retomada pós-Plano Collor, de 1990.



  • Por fim: os incumbentes brasileiros não costumam se sair bem em períodos de forte queda no crescimento (se meu professor de econometria ler isso, pega um avião pra me dar uns cascudos pela sugestão grosseira de causalidade--mas a ideia é só mostrar a coincidência).

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Notas sobre o petróleo barato

Uma conversa pelo Twitter me inspirou a escrever isso, que deve muito também ao ótimo curso que fiz com o Francisco Monaldi.

—Muito se confundem dois conceitos essenciais para a exploração: breakeven e custo marginal.

  • Breakeven é o preço necessário, por barril, para que um determinado projeto de exploração tenha lucro. A definição de lucro aqui não é uniforme, mas, geralmente, corresponde a uma taxa de retorno acima do custo de capital para o projeto. Como esse custo varia muito em função do risco-país e do tipo de exploração, as taxas de retorno correspondentes aos preços de breakeven também variam: o retorno exigido para furar um poço raso na Arábia Saudita é muito menor, por exemplo, do que o de um projeto de águas ultraprofundas na costa de Angola, e este, portanto, requer um preço do petróleo maior como breakeven
  • Custo marginal é, simplesmente, quanto custa para se extrair um barril de petróleo adicional em um poço em funcionamento. 
O preço relevante para determinar se um projeto continuará ou não a ser explorado é o custo marginal, já que o investimento inicial (sunk cost) é geralmente, intransferível e não pode ser recuperado. Em outras palavras, um projeto seguirá produzindo petróleo mesmo se tiver que vender o óleo a um preço muito abaixo do breakeven (tendo prejuízo no projeto), desde que esse preço seja maior do que o custo marginal. É, portanto, errado dizer que o petróleo a tal preço "inviabiliza" a exploração no pré-sal: alguns investimentos já foram feitos ou estão contratados, e os projetos seguirão mesmo que, ao longo do tempo, não se provem lucrativos. Não conheço bem os projetos da Petrobras a ponto de fazer uma análise mais profunda, mas saber o que vai acontecer com o pré-sal é mais complicado do que bater o olho na cotação do petróleo e cravar uma resposta. 

O gráfico abaixo (daqui, clique para aumentar) mostra o breakeven dos principais projetos de petróleo no mundo. Para o poço de Libra, por exemplo, o preço é algo como US$65. Se esse poço vai ou não ser explorado caso o petróleo fique ao redor de US$40, como disse, depende da estratégia da Petrobras, incluindo o quanto a empresa está disposta a perder dinheiro em nome do "projeto nacional" (mais uma variável difícil de se estimar).



—O extremo do gráfico é o campo de Kashagan, no Cazaquistão. O projeto já consumiu US$48 bilhões e está 12 anos atrasado—e depende de uma distante volta do petróleo a US$100/barril para dar lucro.

—A resposta de um produtor a preços mais baixos, em muitos casos, pode ser aumentar a produção (desde que, como vimos, o preço ainda seja mais alto que o custo marginal). É o que tem feito a Arábia Saudita, o produtor mais eficiente e com folgas mais evidentes na produção; e é o que provavelmente está tentando fazer a Venezuela, no desespero do regime chavista para gerar receita e se manter no poder (o lado positivo disso pode ser uma reforma na PDVSA, a empresa estatal de óleo, progressivamente sucateada nos últimos anos).

—A inviabilidade mais evidente está nos projetos de shale gas nos Estados Unidos, onde os breakevens e custos marginais mais se aproximam. Esses projetos, diferentemente dos tradicionais, maturam em pouco tempo e têm o pico de produção no início da exploração. O avanço na tecnologia pode fazer com que, mesmo a preços menores, a exploração seja viável, mas, no curto prazo, o boom nas regiões produtoras deve arrefecer.

—A tecnologia de produção do shale gas é uma Espada de Dâmocles para os produtores de petróleo: se o preço do barril subir, produção adicional torna-se viável e pode ser acionada de forma relativamente rápida, assim como também passa a ser viável tentar recuperar produção de poços que eram dados como esgotados—em ambos os casos, a oferta aumenta e os preços são pressionados para baixo. Em algum lugar, Schumpeter tira sarro de Malthus.

—Muito do ponto anterior está no trabalho algo profético (de 2012) de Leonardo Maugeri. Maugeri acredita que, até 2020, o principal fator de aumento na produção global de petróleo é o renascimento dos campos do Iraque, algo que pode já estar acontecendo:
Crude Oil Production, Iraq, Monthly

—A queda nos preços deveria ser uma excelente oportunidade para o mundo começar a se livrar dos US$5,3 trilhões em subsídios oferecidos aos preços de combustível. A ver quem vai dar esse passo.

—Por fim, sempre bom lembrar:
“The Stone Age did not end for lack of stone, and the Oil Age will end long before the world runs out of oil.”

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Algumas novas medidas de desigualdade de renda no Brasil

Esta semana saíram algumas novas medidas interessantes de desigualdade no Brasil:

—O Valor publicou uma matéria com o trabalho dos economistas do IPEA Sérgio Gobetti e Rodrigo Orair, que olharam a base de declarações de imposto de renda disponibilizada recentemente pela Receita Federal (não achei um paper deles sobre o assunto, mas deve sair em breve). Há duas coisas interessantes nessas medidas: i. elas capturam melhor renda do capital, que é subestimada nas pesquisas por amostragem de domicílios (como a PNAD) e, ii. são (algo) comparáveis com a World Top Incomes Database, que ficou famosa pelo trabalho de Thomas Piketty.

Com base nos dados publicados no Valor, fiz a tabelinha abaixo. Informações muito mais ricas (e compiladas por gente muito mais competente) devem aparecer em breve:


—O LIS, que compila e padroniza dados de renda de vários países, acrescentou às suas bases a PNAD de 2013. De lá saíram os dados de desigualdade do gráfico abaixo—por esses dados, a desigualdade seguiu caindo no Brasil entre 2011 e 2013, conclusão diferente de outros estudos, que apontavam para uma estagnação a partir de 2012 (não me perguntem quais são as diferenças de metodologia, fiquem à vontade para esclarecer ou especular nos comentários).



segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Leituras atrasadas

O mercado frequentemente prevê altas de juros nos EUA cedo demais.

Porque não vai haver quebradeira nos mercados emergentes.

Por mais igualdade de oportunidades nos EUA. Deve valer mil vezes mais para o Brasil.

—Dois ótimos projetos do Laboratório Analytics da Universidade Federal de Campina Grande: "House of Cunha", analisando as votações da legislatura atual da Câmara e "Quem me representa?", que ordena os deputados de acordo com as preferências de quem acessa.

Perfil de Daniel Kahneman no Guardian.

—Oliver Blanchard, o ex-economista-chefe do FMI, tem um homônimo que escreveu este belo artigo sobre sharing economy.

—O departamento de economia mais influente dos EUA: MIT, Stanford ou Berkeley? De qualquer jeito, Harvard lidera com folga o ranking de citações.

Slides de Susan Athey e Guido Imbens sobre machine learning. Uma bela visualização sobre o básico do tema.

Mais um teste de orientação política, este nos termos usados nos EUA.

A filosofia moral da prostituição.

O milagre científico do sorvete (amém).

Uma hierarquia da discordância.

João Gilberto cantando em comercial da Brahma, 1991.

terça-feira, 7 de julho de 2015

O que aprendi no mestrado

Estou há uns 3 meses enrolando pra escrever este post, que deve servir tanto para compartilhar um pouco da minha experiência com os nobres leitores quanto como um longo epitáfio para esses dois últimos anos. Agora que (temporariamente) acabaram minhas desculpas para falta de tempo livre, aqui estamos. Parte da enrolação também é devida à minha completa inabilidade de conseguir olhar para o passado em transições—vamos ver como me saio aqui.

Um bom resumo de tudo é este cartum do SMBC:

O mestrado me empurrou ladeira abaixo do "Mount Stupid" em muita coisa que eu achava que "sabia" (o sumiço do blog é, em parte, consequência disso). É muito difícil encontrar algo pra falar sobre um assunto que: i.você domina bem a ponto de saber que o básico já foi dito em outro lugar, ii. você não tem conhecimento suficiente para dizer algo que passe pelo seu novo filtro de autocrítica e, iii. você sabe de um monte de gente que escreveria melhor e com mais propriedade. Outra dificuldade associada é descer do nível de rigor e abstração que a academia impõe, que em grande medida não serve para o tal "mundo real" (i.e., a maioria dos empregos), nem para tocar um blog de público mais amplo. Acho que com o tempo vou achando um novo equilíbrio e me soltando, mas quando eu desandar a falar muito sobre qualquer coisa, tenham em mente que é mais provável que eu esteja no topo do tal Mount Stupid. 

Outras observações mais leves e, talvez, mais úteis (vou completando ao longo do tempo):

—Um outro lado do que disse acima talvez seja a tal "humildade epistêmica": saber mais sobre o tamanho do corpo de conhecimento sobre determinado assunto e a quantidade de incertezas que o cercam é o equivalente mental a levar uma surra daquele baixinho de quem você subestimou a força e chamou pra briga.

—Nessa linha, claro que a minha antibiblioteca aumentou muito por lá.

—A academia americana é muito mais generosa do que eu imaginava, pelo menos para quem consegue passar do portão. A grande maioria dos professores está disposta a gastar muito tempo com alunos, seja abrindo espaço na agenda para reuniões, respondendo e-mails ou compartilhando papers, bases de dados, códigos, etc. Um paraíso comparado ao clima de torre de marfim que predomina em alguns departamentos aqui no Brasil. Claro que alguns egos são de fato enormes e subindo na cadeia alimentar o clima talvez não seja assim tão amistoso, mas, no geral, até os professores mais famosos são acessíveis e dispostos a colaborar. No fim das contas, acho que tudo aquilo depende de uma troca incessante de ideias, e quem se isola tende a sair perdendo.

—Não dá para, hoje em dia, ser cientista social empiricista e não saber lidar com volumes colossais de dados, tanto para extrair informação e testar hipóteses quanto para gerar visualizações convincentes. Na maioria dos meus cursos usamos Stata, que é bem amigável e relativamente poderoso, mas não chega perto da fronteira. Jovens, aproveitem os neurônios frescos para aprender logo R ou Python. E a fronteira de verdade, mesmo em ciência política, está em machine learning.

—Definições são extremamente importantes, sobretudo se você não vai usar matemática para expressar seu raciocínio. O que pode parecer neutro e preciso muitas vezes carrega juízos de valor, ideologias e um monte de premissas implícitas. Sempre é bom procurar saber o que o autor quer dizer com termos que são contestáveis—muitas vezes percebe-se que ele próprio não sabe. Nessa linha, o Politics and the English Language, do Orwell, merece ser relido regularmente.

—Os trade-offs saber fazer conta/ter bom raciocínio lógico e analítico x escrever bem/ser criativo/ser articulado não existem (isso eu já deveria saber). A separação dessas habilidades é coisa da preguiça intelectual daqui, ou: dá para negligenciar totalmente um lado se você for um artista genial ou um teórico brilhante, mas para nós, mortais, é muito melhor quando os dois lados se completam.

—Muitas conclusões "definitivas" e pseudocientíficas são tiradas a partir de amostras muito pequenas. Identificação causal em ciências sociais é um pesadelo.

—A boa política pública, aprendemos, deve ser tecnicamente correta, administrativamente factível e politicamente apoiável (esta é a santíssima trindade da Kennedy School). Calculem aí o quanto é difícil fazer isso em contextos de falta de mão de obra qualificada, interesses de pequenos grupos infiltrados há séculos na política e falta de capacidade de implementação do estado. Vivemos condenados a um mundo de "second" (ou "third", "fourth"...) bests.

—Microeconomia é muito mais legal (e difícil) do que eu sempre achei—cortesia tanto da minha ignorância quanto de uma horrenda geração de professores da FEA-USP.

—E, já que é pra falar mal da alma mater: é incrível notar como a USP transforma(va?) uma geração de bons estudantes (privilegiados, claro, mas tantos outros privilegiados não passavam no vestibular) em vagabundos desinteressados, e como uma universidade excelente faz algo totalmente diferente. A maioria dos meus colegas da Poli e da FEA não é menos "inteligente" que meus colegas de Harvard, mas a maioria teve trajetórias acadêmicas medíocres e enormes potenciais frustrados ou adiados, em grande medida, creio, por um sistema de incentivos que não leva o aluno a querer aprender e perseguir seus interesses. Também é chocante notar que é muito mais fácil encontrar alunos negros em Harvard do que em algumas das unidades da USP.

Tenho um monte de outras observações de caipira brasileiro deslumbrado com os EUA, mas vou poupá-los delas. Em um post futuro, falarei mais sobre o programa de mestrado que cursei.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Mestre

Acabaram minhas férias na Disneylândia intelectual e depois de amanhã estou de mudança, de volta para o Brasil. Depois escrevo algo sentimentaloide e pseudo-profundo sobre a experiência; por ora fiquem com essa brilhante citação (infelizmente não sei quem é o autor para poder dar o devido crédito).



sexta-feira, 22 de maio de 2015

O que não ler quando...

...você está há dois anos estudando fora do Brasil e prestes a voltar para procurar emprego (sim, este post é um mimimi de um ultraprivilegiado):

Oreopoulos, von Wachter & Heisz, que mostram que, numa base de dados do Canadá, pessoas que se formaram (na graduação, OK) e procuraram trabalho durante recessões sofrem efeitos negativos em seus salários por dez anos, por terem que aceitar inicialmente trabalhar para firmas que pagam relativamente mal;

Goldin & Katz, numa base de dados de ex-alunos de Harvard, estimaram que um hiato de 18 meses em uma carreira de 15 anos (após terminar a graduação) implica em uma queda de 41% na renda dos que têm um MBA.

Pelo lado positivo, no Brasil não vou ter essa maldita alergia a pólen que está me derrubando há uma semana.


sexta-feira, 15 de maio de 2015

B.B. King

Uma vez, há uns 5 anos, cheguei muito cedo (antes das 7h00) para uma conferência em um hotel perto da Paulista. Na porta, estava parado um ônibus com "B.B. KING" escrito em letras imensas--sabia que ele tinha se apresentado em São Paulo na noite anterior e estava indo para Curitiba. No saguão do hotel, um velhinho meio corcunda, de boina e camiseta, dava um esporro geral no pessoal que carregava as caixas para o ônibus. Fiquei olhando para o Rei do Blues, meio pasmo; ele percebeu, armou um sorriso, acenou, virou as costas e foi embora.



Ouço regularmente bem pouca coisa do que ouvia há 10 ou 15 anos. B.B. King, claro, está entre elas. Poucos músicos me tocam tanto (me perdoem pelo clichê) na alma quanto King. Algumas letras--otimistonas, quase tontas--servem mais para me consolar do que qualquer filosofia ou texto religioso.



O melhor de B.B. King, creio, são os discos ao vivo dos anos 1960 e 1970. Live at the Regal, Live in Cook County Jail, Live in Japan e esse delírio, Live in Africa (que acho que só existe em DVD--vejam também o documentário Soul Power) são todos impecáveis. King era também o rei dos palcos, incendiário e ridiculamente carismático: ouçam, no show de Cook County Jail, ele dando dicas amorosas para os--como não dizer?--privilegiados detentos.



Me despeço de King no dia do meu 35º aniversário. Sua música, tenho certeza, vai me acompanhar até o último. Até mais, gênio.