quarta-feira, 9 de julho de 2014

Brasil 1, Alemanha 7

Dia bom pra ler isso aqui (itens 7 e 8, em especial), mas não antes da explicação definitiva baseada em economia política.


quarta-feira, 2 de julho de 2014

Salários altos, Revolução Industrial e o Brasil de hoje

"As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender" (Paulinho da Viola em Coisas do mundo, minha nêga)


Nessa pausa da Copa, aproveite o tempo para ler este paper de Peter Temin (professor emérito do MIT), uma revisão, em linguagem simples e acessível, da evolução da "Nova História Econômica" (que também atende pelo nome de cliometria.) A cliometria é produto tanto da quantificação da economia, cujo marco inicial foi a publicação do The Foundations of Economic Analysis, de Paul Samuelson, em 1947 (Samuelson tinha 32 anos, mortais—e é uma das celebridades que compartilham o dia de aniversário com este que vos escreve, como Raí e os gêmeos De Boer), quanto da evolução das técnicas econométricas, da disponibilidade de dados e do poder dos computadores para processá-los.

Temin destaca a pesquisa recente de Robert C. Allen, Hans-Joachim Voth e Nico Voigtländer (os dois últimos são coautores), que tenta responder a pergunta mais clássica de história econômica: por que a Revolução Industrial ocorreu na Inglaterra no século XVIII? A narrativa que emerge desses trabalhos é fascinante. Vou tentar resumir em um parágrafo (já me perdoem pela heresia):

A Peste Negra, no século XIV, foi a mãe de todos os choques exógenos: surgiu inesperadamente e, em pouco tempo, reduziu drasticamente a oferta de mão de obra na Europa. Como consequências, para cultivar plantações cujo tamanho não mudou: i) salários subiram, ii) aumentaram os incentivos para adoção de novas tecnologias, iii) mulheres passaram a fazer parte da força de trabalho (tanto pela demanda por trabalhadores quanto pela adoção de tecnologias que diminuíram a necessidade de força física para o trabalho agrícola.) Com isso, mulheres passaram a se casar mais tarde e a ter menos filhos. A população passou a crescer mais lentamente, o que manteve a oferta de mão de obra restrita e os salários mais altos. Começava a se romper a "armadilha malthusiana": as famílias, menores, passaram a dispor de mais renda e puderam incrementar a alimentação (comer mais proteína animal), que, por sua vez, seguiu alterando o padrão da agricultura. A Revolução Industrial surge como uma tentativa de produtores reduzirem custos (já que empregar gente ficou permanentemente mais caro), alimentada pela criatividade de pequenos empreendedores que passaram a ter renda acima do nível de subsistência e tempo livre para experimentar (falta a peça do quebra-cabeça que explica o porquê da Inglaterra e não outro país europeu: energia barata, segundo Allen.)

Temin liga a história do desenvolvimento da Europa (depois replicada para outros continentes) aos problemas atuais de economia do desenvolvimento. A diferença entre a Europa pobre, pré-Revolução Industrial e a Europa rica que veio depois é similar à diferença corrente entre países pobres e países ricos: estes pagam salários maiores e usam tecnologia mais avançada. Ambos os fatores são, claro, interligados: salários mais altos justificam o investimento em tecnologia, e o aumento de produtividade sustenta níveis de renda maiores. A dificuldade está na transição: como fazê-la em (muito) menos que 400 anos e sem depender de um enorme choque exógeno. Se buscarmos respostas na história de sucesso da Europa, um bom começo passa por inclusão de mais mulheres na força de trabalho e redução da taxa de fertilidade.

Corta para o Brasil de hoje: um dos fatores mais importantes e menos alardeados da história econômica do país desde a redemocratização é uma profunda transição demográfica, que segue surpreendendo nós, pobres economistas. A taxa de fertilidade caiu muito rápido: lembro de um texto de Roberto Campos, acho que do início dos anos 1980 (estou sem o livro aqui, é um dos primeiros do Ensaios Imprudentes, salvo engano) que a listava como "o" principal problema do país. Tal problema desapareceu em pouco mais de uma geração: em 1980 esperava-se que cada mulher tivesse 4 filhos durante sua vida; hoje, menos de 2. Em mais uma geração, a população total do país deve começar a declinar, a partir de um pico de 220 milhões. A surpresa mais recente, e que ajuda a explicar porque o desemprego segue baixo mesmo após anos de atividade econômica fraca e salários subindo, é o baixo crescimento da população economicamente ativa (está bem explicado neste artigo do Marcelo Muinhos). Não só a população total cresce pouco como também, aparentemente, demora-se mais para entrar no mercado de trabalho, já que o aumento da renda das famílias permite financiar mais anos de educação e diminui a pressão para que jovens comecem a trabalhar o quanto antes.

A tragédia do Brasil recente é a produtividade, que é frequentemente ligada à adoção de tecnologia. Além dos dados, anedotas não faltam: os ônibus nas grandes cidades ainda empregam cobradores, o enorme contingente de empregadas domésticas, manobristas, garçons, frentistas, recepcionistas, porteiros... Claro que não se trata de simplesmente extinguir esse tipo de trabalho, mas criar condições para que os que se empregam nele consigam trabalhos melhores e sejam substituídos por tecnologia e processos mais avançados (exemplo: grandes prefeituras poderiam aproveitar o mercado de trabalho aquecido e criar projetos para acabar com cobradores de ônibus em poucos anos, oferecendo um pacote de alguns meses de salário e cursos de qualificação. Há, claro, uma briga necesária a ser comprada com sindicatos e afins.) É preciso criar um círculo virtuoso onde empregadores concluam que só conseguirão ser competitivos se diminuírem o uso de mão de obra, invistam em tecnologia e a mão de obra dispensada, suficientemente qualificada, consiga outros empregos, criados por novos investimentos visando um mercado consumidor maior e com mais poder aquisitivo. Mais fácil falar do que fazer, evidentemente, mas boa parte das condições de uma "revolução industrial contemporânea" estão dadas pela transição demográfica descrita acima. Essas condições precisam ser aproveitadas antes que prevaleça a história do "país que envelheceu antes de ficar rico."

A grande conquista dos governos no PT (muito ajudados por um grande choque de termos de troca entre 2002 e 2012, é sempre bom reconhecer), e que, na minha visão, é totalmente coerente com a história do partido, foi o aumento consistente dos salários reais. Como isso ocorreu com produtividade em queda, dependeu de uma grande redistribuição que está culminando, acredito, em taxas de lucro das empresas que não justificam novos investimentos (além da inflação persistentemente alta.) Se isso está correto, a política econômica dos próximos anos deve ser fortemente voltada para o lado da oferta, assumindo que, corretamente, as conquistas recentes em salários não podem retroceder e serão naturalmente defendidas pelos enormes grupos de interesse que se criaram em torno delas (a obviedade aparente do suicídio eleitoral que seria defender a desindexação do salário mínimo é um bom indicador da força dessa defesa.) Acho que, dentro da conjuntura, há pouco espaço para mais "trabalhismo" e muito para um "desenvolvimentismo" que tem pouco a ver com o significado que tem se dado à palavra. Criá-lo vai requerer muita criatividade e esforço de economistas e políticos que, por enquanto, ainda precisam gastar tempo e energia discutindo e pensando em questões como controle da inflação e disciplina fiscal.


Outros links:
—O paper de Voth e Voigtländer;
—Um resumo da pesquisa de Robert C. Allen;
—Se não conseguirem acessar o Temin no NBER, uma alternativa.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

5 motivos para o blog estar abandonado

1. É Copa

2. É Copa

3. Falta de tempo (bom, era até algumas semanas atrás, agora virou uma muleta conveniente)

4. Falta de assunto (não acho que tem muito valor ficar repetindo que a política econômica do Brasil é ruim, e os assuntos que venho estudando me parecem de menor interesse geral)

5. Crise em conciliar as ideias que eu tinha com o que aprendi em um ano de mestrado: ao mesmo tempo não me sinto confortável em usar algo que ainda não domino, e algo do que eu fazia antes me parece hoje vergonhosamente simplista.



segunda-feira, 5 de maio de 2014

sábado, 19 de abril de 2014

Thomas Piketty e o espírito do tempo

Piketty ontem na Harvard Kennedy School (foto roubada da Masoomeh Khandan)

Desperto o blog da sonolência dos últimos meses para falar sobre o que todo mundo tem falado (o mundo como esse estranho lugar onde as pessoas debatem conceitos abstratos ligados a dinheiro e produção): o novo livro de Thomas Piketty, "Capital in the 21st Century", que deve roubar  de "Why Nations Fail" e "This Time Is Different" o título de obra de economia menos lida (qual o público para um trabalho acadêmico de mais de 600 páginas, traduzido do Francês, por mais que escrito de forma acessível e bem editado? Admitindo que fica bonito na estante, "CAPITAL" em letronas vermelhas na lombada) e mais comentada deste século.

Como parte do tour de lançamento da obra nos EUA, que o New York Times noticiou como "Economist Receives Rock Star Treatment", ontem o autor parou por aqui, mais especificamente do lado da sala onde eu costumo ter a maioria das minhas aulas. Cheguei meia hora antes, com a intenção de olhar o movimento e comer algo antes de sentar; acabei, alertado por um amigo, pegando um dos últimos lugares disponíveis. A sala foi enchendo, enchendo, enchendo, enchendo, e, quando Piketty chegou, poucos minutos atrasado, havia gente em pé, a um metro da porta, esticando o pescoço para tentar ver e ouvir qualquer coisa. De fato, tratamento de rock star.

Piketty foi apresentado por Larry Summers como o autor do livro de economia que "causou mais sensação do que qualquer outro em duas décadas, abraçando uma vasta rede de informação e experiência." A tal rede de informação foi construída em um projeto de 20 anos de pesquisa que juntou dados de declarações de renda de mais de 20 países, com séries começando, em alguns casos, no fim do século XVIII. Depois de dividir o mérito dessa base de dados com um grande time de pesquisadores, Piketty logo disse que o objetivo principal do livro é difundir o conhecimento sobre a evolução da riqueza no mundo (zhe knowledge ov evolution ov wealth) e que as recomendações de política econômica são secundárias (mais sobre isso adiante). Sua intenção era atualizar o famoso trabalho de Simon Kuznets, um dos pais do uso de métodos empíricos na economia, agora com mais dados de mais países e poder de computação infinitamente maior.

Ele divide os principais resultados da pesquisa em três pontos:

1. O retorno de uma sociedade patrimonial e baseada em riqueza—a desigualdade de renda e riqueza nos EUA e Europa parece ter voltado aos patamares do início do século XX, no que Paul Krugman, em sua resenha de "Capital in the 21st Century" para a New York Review of Books chamou de "uma nova era dourada." Isso já havia sido adiantado no ano passado, quando Emmanuel Saez (coautor frequente de Piketty) publicou uma atualização para o clássico "Income Inequality in the United States, 1913—1988", de 2003.

2. O futuro da concentração de riqueza—aqui entra a inequação que tem sido repetida como se fosse a nova fórmula da teoria da relatividade. Se r > g (o retorno para o capital for maior do que a taxa de crescimento da economia), como parece ocorrer na maior parte do tempo, a riqueza tende a se concentrar. Entre 1987 e 2013, pelas estimativas de Piketty, a riqueza dos bilionários cresceu a 6,8% anuais, enquanto a mesma taxa para a riqueza média foi de 2,1%.

3. O tratamento da desigualdade nos Estados Unidos—ele comenta que, em 1919, Irving Fisher era presidente da Associação Americana de Economia e demonstrava preocupação com a crescente desigualdade, qualificando-a como uma "ameaça para a democracia americana." Hoje, qualquer tentativa de aumento em impostos progressivos é rotulada como "anti-liberdade" no melhor dos casos e "fascista" no pior. Piketty mostra o gráfico com evolução da alíquota de imposto de renda para a faixa mais altas, que chegou a 90% nos EUA do pós-II Guerra e foi exportada para os derrotados Alemanha e Japão.

Terminada a apresentação, Larry Summers foi o primeiro a perguntar, sugerindo que talvez a desigualdade atual não seja produto do sistema de impostos ou da remuneração do estoque de capital, mas do fato de que "há mais empreendedores, mais Bill Gates e Mark Zuckerberg."  Piketty respondeu, de bate-pronto, que empreendedorismo e inovação não começaram ontem, e que inventores de tecnologias muito mais disruptivas do que o WhatsApp não chegaram perto de acumular os bilhões de dólares acumulados pelos magnatas de hoje. Summers parece ter ficado irritado e aproveitou o resto do tempo na sala para atualizar o sono.

Outro figurão na plateia, Michael Ignatieff, perguntou se não era preciso fazer uma diferenciação normativa entre os tipos de desigualdade (lembrou muito, mas sem citar, a ideia de categorias que Daniel Markovits, de Yale, delineou—vejam o último slide desta apresentação que fiz há um tempinho). Piketty concordou, mas disse haver um trade-off entre esse tipo de diferenciação e manter o código tributário simples e não-intrusivo.
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Thomas Piketty é o primeiro a admitir que as aplicações para política pública não são o forte do seu trabalho. Um imposto global sobre fortunas parece altamente implausível, e os efeitos do aumento da desigualdade no crescimento estão longe de ser claros—ele argumenta que concentração de riqueza provavelmente reduz crescimento, mas tanto a teoria como a evidência empírica estão longe de apontarem de forma inequívoca para a confirmação dessa hipótese. É possível que desigualdade seja apenas um sintoma de um mal do capitalismo que ainda não foi identificado, mas que parece também ser responsável por baixo dinamismo do mercado de trabalho e uma recuperação lenta da crise de 2007/2008. De qualquer forma, as razões para combater desigualdade continuam sendo mais morais do que contidas no domínio da economia.

Por que, então, todo o barulho em torno do livro? Aqui, apelo para o pensamento atribuído a Victor Hugo que diz que não há nada mais poderoso do que uma ideia cujo tempo chegou. Desde que a crise foi controlada, governos e progressistas parecem buscar uma nova agenda de política econômica. Atacar a desigualdade parece conveniente, tanto numa tentativa de estender a influência do governo sobre a economia quanto pelo forte apelo moral. O problema é o costumeiro às boas intenções: se um mundo mais igual é preferível, os meios para atingir esse objetivo estão cercados de obscuridade e consequências indesejadas. Aumentar impostos talvez seja a única política factível, mas criará distorções e não necessariamente atingirá os alvos desejados (vide a experiência recente de François Hollande na terra de Piketty). Por outro lado, outras propostas que mais provavelmente contribuiriam mais para a diminuição da desigualdade global (que, sujeita a pouco debate, é muito maior entre países do que dentro de um determinado país), como leis de imigração mais flexíveis, passam longe do debate.

Escrevi tudo isso sem ter lido mais do que as orelhas e a contracapa do livro, que pode ou não surpreender quando o fizer, mas arrisco uma conclusão: "Capital in the 21st Century" é uma obra de pesquisa empírica de ponta, resultado de um trabalho que leva nosso entendimento sobre riqueza e desigualdade para o ponto mais alto da história. Piketty, porém, não é o novo Marx ou Keynes (ou nem mesmo o salvador da economia política no século XXI): é brilhante, estava no lugar certo na hora certa, mas sua obra e suas conclusões ainda vão ter que sobreviver a vários testes de realidade para que a aura de profeta se justifique. O lado positivo é que ele parece saber disso, e deve continuar seu excelente trabalho, agora como improvável herói de um ramo do conhecimento que, ao menos aos olhos do público geral, andava a procura de uma figura sobrehumana.

sexta-feira, 28 de março de 2014

O Brasil BBB-

O rebaixamento da nota de crédito no Brasil começou em junho do ano passado. Foi quando, após uma forte alta no risco-país, generalizada entre os emergentes de perfil parecido (México, Colômbia, Peru), os demais crédiotos começaram a se recuperar e o risco-Brasil permaneceu significativamente mais alto. Quando o movimento começou, o prêmio do CDS de 5 anos dos quatro países era algo como 170 pontos; hoje, o Brasil segue pagando 170 pontos, enquanto México, Colômbia e Peru pagam, respectivamente, 87, 108 e 113 pontos. O comportamento do CDS brasileiro assemelha-se mais ao da Turquia, que tem uma situação externa muito pior (6% do PIB em déficit de conta corrente, contra menos de 4% do Brasil) e, politicamente, ameaça descambar de vez para o autoritarismo.

O resto do texto está no Estadão.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Desigualdade, a bola da vez

Os países desenvolvidos ainda não saíram da crise iniciada em 2007/2008, mas agora parecem conseguir tratá-la como um problema do dia-a-dia: requer constante monitoramento e esforço, mas não mais choques e medidas de emergência. A última evidência a favor dessa tese foi a mini-crise no Chipre, que completa um ano nesta semana. Os abalos foram restritos ao pequeno país e duraram poucos dias para serem dispersados pelos mercados, que seguira escalando o proverbial muro de preocupações.

O resto do texto está no Estadão.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Livros no mercado futuro

Tem sobrado pouco tempo para ler algo além do que está nos syllabi e executar as funções vitais. Portanto, atualmente só opero livros no mercado futuro—acumulo, anoto os títulos e empurro para a frente. Aí vão os que saíram há pouco ou vão sair em breve e quero ler, ficam como dicas para quem ainda passa por este tristemente abandonado blog:

- The Tyranny of Experts, do William Easterly e The Idealist, de Nina Munk. Foram resenhados juntos no FT do último fim de semana. Amanhã vou numa apresentação do Easterly, se der tempo (probabilidade menor do que a do Levy Fidelix levar a eleição presidencial deste ano) posto algum comentário aqui.

- Reinventing State Capitalism: Leviathan in Business, Brazil and Beyond, de Aldo Musacchio (Harvard Business School) e Sergio G. Lazzarini (Insper, autor do indispensável Capitalismo de Laços).

- Brazil: The Troubled Rise of a Global Power, de Michael Reid, editor da The Economist para as Américas.

- Exceptional Argentina, de Rafael Di Tella, Edward Glaeser e Lucas Llach. Tem uma versão prévia por aí, não sei se tem previsão de lançamento.

- The Killing Fields of Inequality, tema da moda aos olhos do grande sociólogo Göran Therborn.

- Flash Boys: A Wall Street Revolt, o novo do Michael Lewis.

- Everyday Is for the Thief, o primeiro livro do Teju Cole, agora relançado.


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Mantega, acreditando em almoço grátis desde (pelo menos) 1994

Um amigo mandou essa coluna do nobre ministro, deleitem-se (clique para aumentar).


terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Fatos e experimentos econômicos no Brasil

Em um de seus últimos ensaios para a New York Review of Books, em 1996, Isaiah Berlin escreveu (tradução livre minha):
“Se os fatos – isto é, o comportamento de seres humanos vivos – são recalcitrantes a tal experimento, o experimentador irrita-se e tenta alterar os fatos para que se encaixem na teoria, o que, na prática, significa um tipo de vivissecção de sociedades até que elas se tornem o que a teoria originalmente declarou que o experimento deveria ter causado que elas fossem.”

O Brasil sempre foi um território fértil para experimentos econômicos – seja pelas circunstâncias herdadas, que, de fato, muitas vezes pediam experimentalismo e ousadia para serem dobradas ou por um tipo peculiar de excepcionalismo, que insiste em pregar que, dentro de nossas fronteiras, práticas testadas e estudadas funcionam de forma diferente, muitas vezes opostas ao que dizem a teoria consagrada e o senso comum.

O resto do texto está no Estadão.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Argentina, a megera domada?

Na peça de Shakespeare, Catarina, a megera do título, é “domada” com uma série de privações impostas por seu marido, Petrúquio. Na semana passada, o ministro da economia da Argentina, Axel Kicilof, anunciou uma nova metodologia de cálculo para a inflação no país, marcando uma “mudança qualitativa com relação ao passado” (palavras dele). Ainda é altamente especulativo pensar que a Argentina foi domada pelas privações impostas pelos mercados internacionais. Porém, a medida, em meio a negociações (que precisam de um aval do FMI) de uma dívida de US$ 6,5 bilhões com o Clube de Paris, pode indicar que o país quer levantar uma bandeira branca para tais mercados.

O resto do texto está no Estadão.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

De Roberto Campos para Paul Samuelson

Em dezembro de 1973, governo Médici, depois de cinco anos de AI-5, seu Roberto Campos, nosso mais ilustre liberal, enviou uma carta a Paul Samuelson "esclarecendo" alguns comentários da nova edição do seu clássico livro-texto, Economics. O documento está no site que acompanha o relançamento da série de livros de Elio Gaspari sobre a ditadura. Campos diz que o regime no Brasil é "autoritário", mas não ditatorial:

"Its most appropriate description would be a regime of 'consented authoritarianism'"

E completa:

"Solid operational democracies like the US can afford to ignore the difference between opposition and subversion."

Sendo esse um dos ícones da defesa das liberdades individuais, não é de se estranhar que o liberalismo tenha tanta dificuldade em se firmar por aqui...



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O interminável reinado do CDI

Deve haver poucos lugares onde a máxima “dinheiro é rei” vale tanto quanto no Brasil. Em tempos de crise, diz a sabedoria dos mercados, ter dinheiro em caixa, mesmo sem receber juros, é imperativo para o bom desempenho de qualquer carteira de investimentos. Primeiro, porque em tempos difíceis não perder é a maneira mais fácil de bater a concorrência. Segundo, porque a flexibilidade decorrente permite aproveitar as boas oportunidades que uma liquidação generalizada proporciona. Por aqui, entretanto, mesmo nos períodos de bonança não é fácil bater o rendimento do dinheiro emprestado por um dia, com garantias, para bancos (ou para o banco central).

O resto do texto está no Estadão.