domingo, 31 de dezembro de 2017

O Mito do 'Quality Time'

Há quase 20 anos passo a virada de ano com um grupo de amigos, geralmente na praia. Este ano traduzi esse artigo do Frank Bruni para ler antes da ceia. Feliz 2018!


O Mito do ‘Quality Time’
Frank Bruni (New York Times, 5 de Setembro de 2015)


Todo verão, por muitos anos, minha família tem obedecido ao nosso ritual. Todos nós 20 – meus irmãos, meu pai, nossos companheiros, minhas sobrinhas e sobrinhos – procuramos uma casa de praia grande o bastante para caber todo o clã caótico. Nós viajamos de nossos diferentes estados e fusos horários. Nós dividimos os quartos sob tensão, tentando lembrar quem se deu bem ou mal na viagem anterior. E nós nos jogamos uns aos outros por sete dias e sete noites.

É isso: uma semana inteira. Isso é parte de um ritual que intriga muitos dos meus amigos, que apreciam proximidade familiar, mas acham que pode haver exageros. Um fim-de-semana prolongado não é suficiente? E não evitaria algumas briguinhas e simplificaria o planejamento?

A resposta para a segunda pergunta é sim, mas, para a primeira, um enfático não.

Eu costumava achar que mais curto seria melhor, e, no passado, eu chegava para essas férias na praia um dia depois ou ia embora dois dias antes, dizendo a mim mesmo que eu tinha que quando, na verdade, eu também queria – porque eu desejava meu espaço e meu silêncio, e porque eu fico cansado de me lambuzar de protetor solar e de encontrar areia em lugares estranhos. Mas, nos últimos anos, eu tenho aparecido no começo e ficado o tempo todo, e notei uma diferença.

Num período mais longo, há uma chance maior de eu estar por perto no momento preciso e aleatório quando um dos meus sobrinhos baixa a guarda e me pede um conselho sobre algo pessoal. Ou quando uma das minhas sobrinhas precisa de alguém que não seus pais para lhe dizer que ela é inteligente e bonita. Ou quando um dos meus irmãos lembra de um incidente na nossa infância que nos faz rir incontrolavelmente e, de repente, a corrente íntima e feliz do nosso amor fica muito mais apertada.

Simplesmente não há substituto real para a presença física.

Nós nos iludimos quando dizemos o contrário, quando invocamos e veneramos “quality time,” uma expressão batida com uma promessa questionável: que nós podemos planejar ocasiões de franqueza extraordinária, tramar episódios de ternura sutil, engenhar intimidade numa hora marcada.

Podemos tentar. Podemos isolar uma refeição por dia ou duas tardes por semana e livrá-las de distrações. Podemos escolher um lugar especial que encoraje relaxamento e elevação. Podemos enchê-lo de totens e frufrus – um balão para uma criança, espumante para uma esposa – que sinalizam celebração e criam um senso de sagrado.

E não há dúvida que o grau de atenção que trazemos para uma ocasião a enobrece ou a diminui. É melhor passar 15 minutos focados e atentos do que 30 totalmente distraídos.

Mas pessoas não operam no exato momento em que se espera. Pelo menos nossos humores e emoções não. Nós pedimos ajuda ocasionalmente; nós desabrochamos de forma imprevisível. O jeito mais seguro de ver as cores mais brilhantes, ou as mais escuras, é observar e esperar e estar pronto para elas.

Isso se reflete em uma mudança sobre a qual Claire Cain Miller e David Streitfeld escreveram no The Times. Eles notaram que “uma cultura de trabalho que exige que mães e pais voltem correndo para seus escritórios está começando a mudar,” e citam “políticas mais amigáveis para famílias” na Microsoft e na Netflix, que estenderam o tempo de licença que pais e mães podem tirar.

Ainda estamos por ver quantos pais e mães vão sair da rotina acelerada e se beneficiar disso, mas aqueles que o fizerem estarão decidindo que a quantidade de tempo que passam com suas crias importa tanto quanto a intensidade com que o fazem.

Eles têm sorte: muitas pessoas não são privilegiadas o bastante para poder fazer esse tipo de escolha. Minha família também tem sorte. Nós temos condições de tirar férias.

Mas nós também nos dedicamos a isso, e determinamos que o Dia de Ação de Graças não é o bastante, que o Natal passa muito rápido e que se cada um de nós quer mesmo ser parte central da vida dos outros, precisamos fazer um investimento do qual os maiores componentes são minutos, horas e dias. Assim que a nossa semana na praia deste verão acabou, nos debruçamos sobre nossos calendários e trocamos dezenas de e-mails para achar uma semana no próximo verão que todos possam tirar. Não foi fácil, mas foi essencial.

Casais vão morar juntos não porque isso é prudente economicamente. Eles entendem, conscientemente ou instintivamente, que proximidade ininterrupta é o melhor caminho para a alma de alguém; que gestos não ensaiados em momentos inesperados rendem melhores recompensas que aqueles ensaiados para um encontro marcado; que o “eu te amo” que conta mais não é sussurrado com grande cerimônia no topo de uma colina na Toscana. Não, ele escapa casualmente, espontaneamente, na seção de hortifrútis ou lavando louça, no meio do tédio e da sujeira de suas rotinas. Também é quando as confissões mais verdadeiras são feitas, quando a mágoa está mais crua e o carinho mais puro.

Eu sei como meu pai de 80 anos se sente sobre morte, religião e Deus não porque eu marquei um encontro discreto para discutir tudo isso com ele. Eu sei porque eu, por acaso, estava no banco do passageiro do carro dele quando esses pensamentos estavam na sua mente e quando, por qualquer motivo imprevisível, ele se sentiu confortável para articulá-los.

E eu sei o que ele aprecia e do que se arrepende mais no seu passado porque, além de eu ter sido pontual para as férias deste verão, eu viajei para lá com ele, para engordar nossa visita, e ele estava especialmente pensativo naquele voo.

Foi durante um almoço na casa de praia o dia que meu sobrinho mais velho falou, com franqueza e extensão incomuns, sobre suas expectativas para a faculdade, suas experiências no ensino médio – coisas que eu sempre tentei arrancar dele antes, nunca conseguindo as respostas generosas que ele me deu durante aquela refeição em particular.

Foi numa corrida na manhã seguinte que a minha sobrinha mais velha descreveu, como nunca tinha feito para mim antes, frustrações e detalhes do seu relacionamento com seus pais, suas duas irmãs e seu irmão. Por que essa informação saiu dela naquele momento, com pelicanos voando sobre nossas cabeças e suor escorrendo pelas nossas testas, não consigo dizer. Mas consigo dizer que estou ainda mais fortemente ligado a ela agora, e não por causa de algum esforço orquestrado e deliberado para testar as emoções dela. É porque eu estava presente. É porque eu estava lá.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Os livros de 2017

É aquela época do ano de novo. Aqui o que andei lendo de bom (em nenhuma ordem particular):

Ficção

‘Sweet Tooth’, Ian McEwan. A Guerra Fria encontra a literatura na Inglaterra dos anos 1970. Ainda estou pra ler um livro ruim do McEwan.

‘El Aleph’, Jorge Luis Borges. Tem El Zahir, El Aleph e mais alguns outros contos pra você ler em 20 minutos e seguir pensando neles por 20 anos.

‘The Plot Against America’, Philip Roth. É ótimo e tem todas aquelas analogias com a eleição do Trump que você está cansado de ouvir.

‘Afirma Pereira’, Antonio Tabucchi. Obra-prima de concisão e erudição, a briga solitária de um jornalista contra o fascismo português.

‘Os Cus de Judas’, António Lobo Antunes. Mais sobre a vida sob o salazarismo, aqui do ponto de vista de um médico dado a digressões longas e originais trabalhando em Angola durante a guerra colonial.

‘O Homem que Amava os Cachorros’, Leonardo Padura. Grande romance histórico e crítica devastadora ao stalinismo.

‘Half of a Yellow Sun’, Chimamanda Ngozi Adichie. Novelona (no melhor dos sentidos) ambientada na Guerra de Biafra. Não perca tempo com o filme, ruinzinho, ruinzinho. (Acabei de descobrir que essa guerra parou pra um amistoso do Santos de Pelé contra uma tal Seleção do Meio Oeste, história fantástica.)

‘Bone’, Yrsa Daley-Ward. Poesia para a minha geração (que não gosta muito de poesia, acho).

‘Laços’, Domenico Starnone. Não há uma linha desperdiçada nessa grande pequena novela. Junto com o Lobo Antunes, foi o que mais gostei de ler no ano.


Não-ficção

‘Guns, Germs, and Steel: The Fates of Human Societies’, Jared Diamond. Uma busca original e erudita pela causa-raiz do desenvolvimento econômico. O tamanho intimida, mas é uma leitura fluente e prazerosa.

‘A Ditadura Acabada’, Elio Gaspari. Esperado último livro da série, é generoso demais com o governo no desastre econômico do fim do “milagre”, mas vale a leitura.

‘A Segunda Mais Antiga Profissão do Mundo’, Paulo Francis. Sempre divertido rever os chutes e acertos de um dos nossos maiores tudólogos.

‘Straw Dogs: Thoughts on Humans and Other Animals’, John Gray. Pra ler na praia, num dia de sol, com um mojito na mão (em qualquer outra situação pode levar à depressão e pensamentos suicidas, epa, peraí, por que você está entrando no mar com uma bigorna amarrada no tornozelo?).

‘Traffic: Why We Drive the Way We Do’, Tom Vanderbilt. Enorme e bem-sucedido esforço para apresentar de forma atrativa os resultados de décadas de pesquisa acadêmica sobre um assunto que tanto nos afeta.

‘Representantes de quem? Os (des)caminhos do seu voto da urna à Câmara dos Deputados’, Jairo Nicolau. Manual claríssimo e bem-escrito para entender os desdobramentos do voto proporcional no Brasil. Merecia uma edição atualizada em 2018 incorporando as mudanças da última rodada de reforma política.

‘Pavões Misteriosos – 1973-1984: A explosão da música pop no Brasil”, André Barcinski. As histórias e personagens, famosos e anônimos, de um período de grande criatividade e cara de pau da brilhante música feita por aqui.

‘Better Presentations: A Guide for Scholars, Researchers, and Wonks’, Jonathan Schwabish.
Excelente para quem, como eu, gasta um tempo inconfessável trabalhando com o PowerPoint e apresentando material técnico.

‘Fifty Inventions That Shaped the Modern Economy’, Tim Harford. Harford é quem melhor leva Economia às massas, segue em grande forma.

‘China Airborne’, James Fallows. A indústria aeronáutica chinesa como ponto de partida para falar sobre desenvolvimento, instituições e, claro, o maior dos “grandes enriquecimentos” da história.

‘1988: Segredos da Constituinte’, Luiz Maklouf Carvalho. Ainda quero ler uma narrativa bem contada da constituinte, mas esse livro de entrevistas é muito informativo e divertido.

'Os Pecados Secretos da Economia', Deirdre McCloskey. A edição ficou linda e a tradução é ótima, até compensam a picaretagem do cara que fez as notas.


Quadrinhos

‘Trinity: A Graphic History of the First Atomic Bomb’, Jonathan Fetter-Vorm. Como diz o título, uma história ilustrada do Projeto Manhattan, com vários diálogos históricos reproduzidos.

 ‘Marbles: Mania, Depression, Michelangelo, and Me’, Ellen Forney. Um relato instrutivo, honesto  e sensível sobre a relação entre transtorno bipolar e arte.

 ‘O Árabe do Futuro 3 – Uma Juventude no Oriente Médio (1985-1987)’, Riad Sattouf. Presença frequente por aqui, a série continua ótima.

Outros

‘This Book Is a Planetarium… And Other Extraordinary Pop-Up Contraptions’, Kelli Anderson. Presente de Natal para a pessoa mais curiosa e inteligente da casa (o pequeno Drunk Jr., claro).



Um ótimo final de ano e um 2018 ainda melhor para todos!

sábado, 25 de novembro de 2017

O que os estados brasileiros exportam, afinal?

O mapa abaixo, que coloquei no Twitter esta semana, gerou muita curiosidade. Aqui o gabarito de algumas das perguntas que apareceram por lá:



  • O Acre exporta para o Peru madeira (30% do total) algo na categoria de cocos, castanha do Brasil e castanha de caju (27%).
  • Roraima exporta arroz e açúcar para a Venezuela. Jan Tinbergen e discípulos devem ter algo a dizer dos casos de Acre e Roraima, também.
  • 99% do que o Maranhão exporta para o Canadá é óxido de alumínio e derivados (como coríndon).
  • Rondônia exporta carne bovina para Hong Kong.
  • Sergipe, nos últimos 12 meses, exportou mais de 21 mil toneladas de suco de frutas para a Holanda.
  • Nesse mesmo período, Amazonas exportou quase US$ 100 milhões em motocicletas para a Argentina.
  • Desde outubro passado, Pernambuco (provavelmente a fábrica da FCA) exportou mais de meio bilhão de reais em automóveis para a Argentina.
  • O Distrito Federal exporta para o mundo, além de táticas de corrupção e dinheiro para ser lavado, soja e carne de frango.

domingo, 12 de novembro de 2017

Custo de vida e renda no Brasil: ganhe em Brasília, gaste no Piauí

Semana passada o FMI publicou esse paper do Carlos Góes e Izabela Karpowicz que, entre outras coisas, estimou diferenças de poder de compra entre os estados brasileiros (vale ler o trabalho inteiro, que faz ótimo uso dos microdados da PNAD). Com os dados, o Thomas Conti fez o mapa abaixo, que ganhou certa fama nas redes:

Pegando carona na fama do Thomas, cruzei os dados de poder de compra com os de PIB per capita para tentar medir a "affordability", nada mais do que a relação entre renda e custo de vida. Deu nesses gráficos (clique para aumentar):



No primeiro gráfico, as médias para cada variável define quatro quadrantes: os estados mais caros, com renda abaixo da média (pobre Amapá), estados caros, mas relativamente ricos (SP, RJ e DF, sobretudo), estados relativamente ricos e baratos (por esse critério, o melhor lugar do Brasil para se morar é o Espírito Santo) e os estados relativamente pobres e baratos. Neste grupo, há grande variação de custo de vida -- para uma renda parecida, o Piauí é muito mais barato que Rondônia, e Pernambuco é bem mais caro que os vizinhos Alagoas e Paraíba. Ah, e na média o efeito Balassa-Samuelson funciona para os dados (não esqueça de cortar o cabelo quando for ao Piauí, diria o mestre Jeffrey Frankel).

No segundo, tentei montar um índice de "affordability", dividindo o PIB estadual per capita pelo índice de custo de vida e indexando a 100, a média nacional. Aqui, o PIB per capita domina o efeito do custo de vida, e, no geral, os estados mais ricos (e caros) parecem mais atrativos.

Em resumo: trabalhe em Brasília e gaste no Piauí -- ou mude-se para o Espírito Santo.

P.S. Enquanto preparava esse post, o Thomas, com os mesmos dados, fez esse gráfico, muito mais sofisticado:

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Os (enormes) subsídios para crédito direcionado

Publicado originalmente no Acredito, em 23 de maio.

Em meio à polêmica da JBS, empresa que se beneficiou da ajuda do BNDES, vale aprofundarmos o debate sobre a alocação de crédito subsidiado no país.

Um recente trabalho para discussão do Banco Mundial estimou que, em 2015, o Brasil gastou 1,5% do PIB (R$ 86,5 bilhões) em subsídios para crédito direcionado. Isso corresponde a mais de 80% de todo o resultado (déficit) fiscal primário naquele ano, ou a três anos de Bolsa Família.
Além do valor em si, chama a atenção a potencial mal alocação dos recursos: os autores avaliam que empresas que tipicamente se beneficiam de juros subsidiados são grandes, antigas, não usam o crédito barato para investir mais e podem se beneficiar de “arbitragem financeira” -- simplesmente aplicando os recursos recebidos a taxas maiores no mercado financeiro, sem risco.

Como tem sido usado no Brasil, o crédito subsidiado é uma barreira à igualdade de oportunidades e ao crescimento econômico. O alto volume de recursos direcionados aumenta as taxas de juros de mercado, inibindo empreendedorismo, e pode contribuir para o aumento da desigualdade de renda. A solução, na nossa visão, não passa necessariamente pela eliminação imediata de todos os subsídios, mas começa por uma prestação de contas mais clara de custos e benefícios. A Instituição Fiscal Independente, criada no final de 2016, pode ter um papel importante na padronização e disseminação desse tipo de informações.

Clique para aumentar o gráfico.


The reports of my death have been grossly exaggerated

Mas, vergonhosamente, eu ainda não havia postado nada no ano da graça de 2017.

Continuo não conseguindo produzir material original pra colocar aqui, mas vou aproveitar para requentar algumas coisas que escrevi para o Acredito e pro trabalho.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Os Livros de 2016

Olhando a lista do que li neste ano fiquei com a impressão que, tal qual o autor do maior trote telefônico da história, perdi muito tempo com bobagens – logo, a meta literária para o ano que vem está evidente. O que dá pra recomendar (sem nenhuma ordem particular):

Economia, mercados & afins:


  • ‘The Second Machine Age’, Andrew McAfee e Erik Brynjolfsson. Possivelmente o melhor guia – sem (muito) deslumbre ou catastrofismo – para como o refinamento de algumas tecnologias que já utilizamos hoje vai mudar nossas vidas e a estrutura do mercado de trabalho.
  • ‘How Does My Country Grow’, Brian Pinto. Excelente guia para analisar países do ponto de vista da macroeconomia e um prazer de ler – uma raridade para livros desse tipo. Grande dica do Samuel Pessôa.
  • ‘The Origin of Wealth: Evolution, Complexity, And the Radical Remaking of Economics’, Eric D. Beinhocker. Economia da complexidade é a heterodoxia possível, acho.

Temas menos mundanos:

  • ‘Letters to a Young Contrarian’, Christopher Hitchens. Hitchens irrita como poucos.
  • ‘When the Facts Change: Essays, 1995-2010’, Tony Judt. A raspa do tacho da produção de Judt, melhor do que muitos tachos inteiros por aí.
Quadrinhos:

  • ‘The Fixer and Other Stories’, Joe Sacco. O ‘fixer’ do título é uma alegoria brutal da Guerra da Bósnia e um dos grandes personagens que já apareceram nos quadrinhos.
  • ‘Zahra’s Paradise’, Amir & Khalil. Excelente companhia pro ‘Rosewater’, de Jon Stewart.
  • ‘Bohemians’, vários autores editados por Paul Buhle e David Berger. Coletânea de quadrinhos um pouco irregular, mas raramente desinteressante sobre uma época porreta.
  • ‘Relish: My Life in the Kitchen’, Lucy Knisley. Qualquer um que gosta de comer vai se identificar com essas memórias sentimentais. A receita de carbonara foi testada e aprovada por este sofrível cozinheiro.
Ficção:
  • ‘Três Mulheres de Três PPPês’, Paulo Emílio Sales Gomes. As três mulheres sapateiam nos três PPPês (os narradores) em novelas de alma paulistana (isso é um elogio!). Paulo Emílio teria feito 100 anos em 2016, aqui uma bela homenagem da Cinemateca Brasileira.
  • ‘The Children Act’, Ian McEwan. McEwan consegue dar leveza para temas éticos e morais pesados e humanidade para juízes e advogados (he he he).
  • ‘Bonita Avenue’, Peter Buwalda e ‘The Human Stain’, Philip Roth. Fazendo a lista me dei conta de que esses dois livros têm bastante em comum – Roth é melhor, mas Buwalda também satisfaz.
  • ‘Obra Completa’, Murilo Rubião. Dos contos mais bem escritos e originais da nossa língua.
  • ‘Madame Bovary’, Gustave Flaubert. Precisa justificar?

Tudo que li no ano está no Goodreads. Feliz 2017, caras e caros.

domingo, 13 de novembro de 2016

Lendo sobre Trump

Passado o choque, resta tentar entendê-lo. A lista abaixo é parte recomendações, parte lição de casa pra mim mesmo:

Niall Ferguson: populismo como reação à globalização.

Joachim Voth compara Trump e Hitler. (Ele pode. Só ele.)

Evan Osnos, num tremendo (e antecipado – a matéria é de setembro) esforço para entender como será o governo Trump.

The Economist, também de setembro, sobre "post-truth politics".

Nate Silver sobre como o resultado das eleições poderia ter mudado.

Jorge Castañeda sobre as implicações para a América Latina.

–Andrew Sullivan, antes e depois. Pessimista, muito pessimista.

Gabriel Trigueiro, bem longe da histeria e mais otimista.

Fukuyama e a nova ordem global de mais nacionalismo e populismo. Timothy Garton Ash mais ou menos na mesma linha.

A teoria política previu Trump, enquanto a ciência política o descartou.

Sociólogos e cientistas políticos que foram aos Estados Unidos profundos também fizeram um trabalho melhor. (Este link e o anterior via Lucas Novaes – obrigado!)

Acemoglu falando de – adivinhem – instituições. Ainda há muito a ser escrito sobre como instituições informais foram derrubadas na campanha deste ano.

Tyler Cowen sobre Peter Navarro, que, supostamente, é o economista que mais influencia Trump.

Ainda é a economia, estúpido (pelo menos quando tratada por Ray Fair).

Hirschman, em 1973, sobre tolerância à desigualdade de renda (o famoso paper do "efeito túnel").

A imagem foi roubada da capa da Der Spiegel.

sábado, 15 de outubro de 2016

Frases do Dia – Jane Jacobs e livres pensadores

The sad truth is that the saints we revere for thinking for themselves almost always end up thinking by themselves. We are disappointed to find that the self-taught are also self-centered, although a moment’s reflection should tell us that you have to be self-centered to become self-taught. (The more easily instructed are busy brushing their teeth, as pledged.) The independent-minded philosopher-saints are so sure of themselves that they often lose the discipline of any kind of peer review, formal or amateur. They end up opinionated, and alone.

Adam Gopnik, neste ótimo ensaio sobre Jane Jacobs, que teria feito 100 anos em maio.


terça-feira, 11 de outubro de 2016

Meus palpites sobre a PEC do controle de gastos



Hoje de madrugada listei no Twitter alguns pontos sobre a PEC 241, achando que o assunto já estava meio morto. Como a repercussão foi boa, resolvi listar/expandir um pouco aqui:

1. Sem reforma da previdência, a execução da PEC seria muito dificultada, sobretudo se a recuperação do crescimento do PIB for fraca. As regras atuais de previdência, combinadas com a transição demográfica (população envelhecendo rapidamente – segundo os dados e projeções do IBGE, a população com mais de 50 anos cresceu 43% nos últimos 10 anos e vai aumentar mais 48% até 2030) e o congelamento de gastos fariam com que o aumento orgânico de gastos com a previdência consumisse, ao longo do tempo, todo o espaço do orçamento público usado para outros gastos primários incluídos na PEC.

2. Assim, a PEC cria incentivos para que se reforme a previdência e se garanta que os demais gastos possam ao menos crescer junto com a inflação.

3. A reforma da previdência explicitaria os maiores perdedores com o ajuste fiscal: se a reforma for bem feita (e acredito que a proposta entregue para o governo será, resta saber o quanto vai ser modificada no congresso), os beneficiários mais ricos de um sistema que custa muito para o estado e contribui para o aumento da desigualdade de renda.

4. Se a PEC for combinada com uma bem sucedida reforma da previdência, um resultado provável seria dívida/PIB em queda, inflação e juros menores e superávits primários crescentes. Se a premissa for que consolidação fiscal é necessariamente recessiva (o ponto em que geralmente bate parte da heterodoxia) e/ou desnecessária, bem... que estejamos preparados para o mercado voltar a precificar a dívida como insustentável e as consequências de um ajuste via inflação e repressão financeira. O ajuste como está sendo feito, de forma gradual, atacando problemas estruturais e tentando evitar alta de impostos durante uma recessão profunda, tem, acredito, chances razoáveis de ser favorável a crescimento no longo prazo.

5. Superávits fiscais muito altos seriam indefensáveis politicamente (e de benefício marginal descrescente, na medida em que deixariam clara a sustentabilidade da dívida no longo prazo), o que provocaria pressão por revisão do regime fiscal.

6. Se a reforma da previdência falha, como disse antes, o crescimento orgânico dos gastos não deixaria espaço para o restante do orçamento, o que também derrotaria o Novo Regime Fiscal.

5 + 6 = A PEC dificilmente sobreviverá pelo tempo previsto. Serve, sobretudo, como catalisador para a reforma da previdência e afastar risco de sustentabilidade da dívida no curto/médio prazo.

7. Idealmente, não seria preciso emendar a constituição para isso, mas dada a conjuntura, tornou-se desejável amarrar as mãos dos poderes (vale aqui a discussão de regras x discricionariedade de Kydland e Prescott) e passar sinal forte de comprometimento com reformas estruturais.

8. Como quase tudo em políticas públicas, o demônio maior estará em implementação e execução.

9. A partir do ano que vem, podemos esperar uma briga de foice por exceções e regimes especiais (não sei exatamente como essas disputas se dão dentro do que está na Constituição, mas acho muito difícil que a PEC 241 seja tomada como palavra final sobre tudo relacionado a orçamento). O Supremo Tribunal Federal, como de costume nos últimos anos, deve ser um ator-chave.

10. O manifesto da Procuradoria Geral da República contra a PEC dá uma ideia do tamanho da grita potencial.

11. Pressão do Judiciário também deve ser enorme, já que este poder deve estar entre os perdedores relativos de qualquer consolidação fiscal bem feita.

12. Para contra-atacar, governo precisa escancarar os absurdos do sistema atual e jogar a opinião pública a favor das reformas e contra os privilégios estabelecidos. Exemplos claros não vão faltar.

13. Enfim, os problemas estão só começando. Com sorte serão sinais de que uma direção correta foi tomada.

14. É ingenuidade acreditar na boa intenção da agenda de reformas? Uma saída é acreditar que mesmo um sistema político interessado em perpetuar a extração de recursos dos cofres públicos tem interesse em reformar a economia se a alternativa for matar a galinha dos ovos de ouro ou perder o poder. Por outro ângulo, boa parte da equipe econômica reunida neste governo está arriscando a reputação e pagando um custo de oportunidade relativamente alto para tocar as reformas, e de fato acredito que essas pessoas estão interessadas em melhorar eficiência e equidade. Se estou sendo enganado, ao menos estou em boa companhia.

15. Das iniciativas que vão ajudar na reforma pelas beiradas, uma das mais bacanas que conheci nos últimos tempos é o Comitê de Monitoramento e Avaliação de Políticas Públicas Federais.

16. Para mais detalhes sobre a PEC, recomendo esta nota técnica da Consultoria de Orçamento e Fiscalização Financeira da Câmara. Santander e Itaú também fizeram guias para os efeitos da PEC.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Lista de preocupações econômicas, 1798-2016

Deste discurso de Deirdre McCloskey, para quem a economia deve voltar a ser a "ciência otimista da riqueza" ao invés da "ciência pessimista da escassez" – e para quem as imperfeições da economia de mercado não impediram o mundo de enriquecer boa parte de uma população sete vezes maior do que em 1800 (e vão continuar não impedindo):

1. Malthus worried that workers would proliferate and
2. Ricardo worried that the owners of land would engorge the national product.
3. Marx worried, or celebrated, depending on how one views historical
materialism, that owners of capital would at least make a brave attempt to
engorge it.
4. Mill worried, or celebrated, depending on how one views the sick hurry of
modern life, that the stationary state was around the corner. Then the
economists, many on the left but some also on the right, in quick succession
1848 to the present—at the same time that trade-tested betterment was
driving real wages up and up and up by a factor of anywhere from 30 to 100,
3,000 to 10,000 percent—commenced worrying about, to name a few of the
grounds for imperfections and pessimisms they discerned concerning
”capitalism”:
5. greed (offensive to Christians)
6. alienation (as in the Young Marx)
7. the uneducated taste of the workers in consumption
8. the drinking habits of the workers (thus Knut Wicksell; Irving Fisher)
9. infant industries (List in Germany, Carey in the United States)
10. national histories of economies, as against “English” economics (the German
Historical School)
11. lack of bargaining strength by the workers
12. racial impurity
13. women working
14. immigration of lesser breeds
15. the race to the bottom in wages and the eugenic solution (advocated by most
of the American economics profession c. 1900)
16. neoclassical theory being insufficiently evolutionary (Veblen; Alchian)
17. monopoly and the trusts (see Hovenkamp’s article on “the first law and
economics movement”)
18. imperialism, the last stage of capitalism (Lenin; Hobson)
19. imperialism as robbery
20. adulterated food if no regulation
21. Veblen effects: demand curve slopes up
22. unemployment (a new word with Beveridge’s book of 1909)
23. lack of coordination (rationalization in the 1920s)
24. the government is wise and good, unlike self-interested markets
25. business cycles (eventually Schumpeter; Hayek; Keynes)
26. underinvestment in increasing-returns industries (as Pigou argued)
27. externalities
28. under-consumption (dating back to Malthus and the general glut; then
Keynes; now the neo-Keynesians)
29. monopolistic competition
30. separation of ownership from control (Berle and Means)
31. lack of planning (vs. Mises)
32. the economy is embedded in society (Karl Polanyi)
33. price-fixing markets are only recent, and optional (Karl Polanyi; vs. Michael
Polanyi)
34. post-War stagnationism (Keynes, Hansen)
35. investment spillovers
36. unbalanced growth (Hirschman; French indicative planning)
37. capital insufficiency (Harrod/Domar/Solow models; William Easterly on
“capital fundamentalism”)
38. businesspeople do not price by marginal cost or marginal revenue, but by
average plus markups
39. predatory pricing leads to monopoly
40. few competitors in an “industry” leads away from price = marginal cost
41. absence of entrepreneurs in certain cultures
42. dual labor markets (W. Arthur Lewis)
43. cost-push inflation (Otto Eckstein)
44. capital-market imperfections
45. peasant irrationality (vs. Theodore Schultz)
46. cultural irrationality
47. economic behavior has motives beyond self-interest
48. low-level traps, cycle of poverty (W. Arthur Lewis)
49. prisoner’s dilemma (and much later Elinor Ostrom’s reply)
50. failure to define property rights (Alchian, Demsetz, Coase: one of a few, like
those immediately following here, from the political right)
51. overfishing (H. Scott Gordon [195X] and Anthony Scott [1955])
52. tragedy of the commons (Garrett Hardin)
53. over-population (Hardin’s motive)
54. transaction costs (Coase)
55. public goods cannot be supplied privately (Samuelson; vs. Coase, Demsetz)
56. public choice (Buchanan, Tullock)
57. regulatory capture (ICC case Gabriel Kolko; Stigler)
58. free riding (Mancur Olson)
59. missing markets (George Akerlof; Joseph Stiglitz)
60. the Cambridge capital controversy and the undefinability of capital (Piero
Sraffa; Joan Robinson; Geoffrey Harcourt; see above, Ricardo)
61. informational asymmetry (Akerlof)
62. unions as good monopolies (H. Gregg Lewis tested it 1955-1980)
63. third-world exploitation (see above, imperialism)
64. advertising (Galbraith)
65. public underinvestment (Galbraith)
66. fine tuning of the economy can work
67. large scale econometric models are the way forward
68. the invisible hand is mere magic unless proven mathematically
69. the conditions sufficient in logic for invisible-hand results are unreasonable
(Hahn; Arrow; Debreu)
70. false trades out of equilibrium make it impossible to conclude that supply =
demand is optimal
71. any imperfection throws economic analysis into a hopeless world of secondbest
72. all policy arguments, such as the effect of minimum wages, must be
expressed in general equilibrium, or else they are inconclusive
73. most economic propositions, such as downward sloping demand curves, are
only provable econometrically
74. most econometric results have serious flaws
75. history is irrelevant: what matters is the future
76. history is decisive: what matters is the past
77. middle-income trap
78. path dependency (Paul David)
79. the economy is a complex system, with chaos and catastrophe
80. worker cooperatives are always better than corporations, but are lamentably
rare
81. lack of international competitiveness
82. consumerism (see above, bad taste of workers)
83. consumption externalities (Robert Frank)
84. unemployment and inefficiency results from menu costs in the product
market (neo-Keynesian neoclassicism)
85. knowledge has zero opportunity cost, but is expensive to produce (Paul
Romer)
86. irrationality (behavioral economics)
87. irrational entrepreneurs (Schumpeter; Keynes; Akerlof and Schiller)
88. hyperbolic discounting
89. too big to fail
90. environmental degradation
91. underpaying of care workers (Nancy Folbre)
92. GDP is a poor indicator of anything important
93. prices are influenced by an unjust distribution of income, and therefore are
irrelevant to policy for a just society
94. profit is against people; profit vs. social well-being
95. overpayment of CEOs
96. artificially high wages cause labor-saving innovation (Kaldor; Habakkuk;
Allen; Robert Reich)
97. the government has innovated most (Mazzucatto)
98. any imperfection—orphan drugs, for example—shows that capitalism is bad
on balance, even if the imperfection is caused by government
99. neo-liberalism has impoverished people worldwide
100. neo-stagnationism (Tyler Cowen; Robert Gordon 2016 )
101. rising inequality in future (Thomas Piketty)

A lista também deve servir como um superteste de História do Pensamento Econômico. Um dia consigo entender tudo.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A crise de representação no Brasil

O blog anda parado porque tenho gastado todo o meu tempo livre tentando entender, à la Santiago Zavala, em que momento o Brasil se fodeu. (Mentira, ando mesmo é com bloqueio de escritor, ou preguiça, a depender da generosidade do leitor). De qualquer forma, com relação à pergunta, li hoje três coisas interessantes:

Frances Hagopian coloca como origem da atual crise de representação a divergência entre a expansão de accountability horizontal e a falha dos partidos em capturar a demanda emergente por representação política:

"Why are voters ready to see the ouster of a president
to whom they gave a second term just two years ago? Why, given
Brazil’s great strides in building a more inclusive democracy buttressed
by stronger institutions of horizontal accountability—which have been
key to exposing the Petrobras scandal—are we witnessing such political
turmoil? What underlies the current crisis?
 
The answer is that stronger horizontal accountability institutions and
an expanded citizenship have paradoxically eroded the bonds of vertical
accountability. Brazil’s recent achievements in empowering accountability
institutions and enforcement agencies and broadening sociopolitical inclusion
have generated demands for political representation that the existing
party system has not been able to meet. The work of judicial institutions
now throws corruption (hardly a new phenomenon) into starker relief. At
the same time, the stabilization of the economy and the expansion of access
to social services and income support have made citizens less reliant
on patronage and more demanding of local and national governments."

Mainwaring, Power e Bizzarro apontam que o relativo sucesso econômico do Brasil até poucos anos atrás ajudou a institucionalizar o sistema de partidos, algo que está em risco com a crise corrente e os dois principais partidos programáticos do país catando os cacos do que já foram por aí. O reverso da institucionalização é o personalismo da política no Peru ou o caos da Venezuela.

Alguma esperança? De novo, Hagopian:

"The protests of recent years in Brazil are a sobering reminder that
democracies need representative institutions to reach citizens, to express
their aspirations, and to translate their preferences into effective governing
solutions. But the protests also offer a ray of hope: Even in hard
times, and with popular anger at the political class threatening to boil
over, Brazilians find their democracy worth taking part in, and respect
the institutions that safeguard it."

E, no mesmo tom, a (grande) coluna desta semana do Michael Reid na The Economist:

 "... in Brazil, with its strong parliamentary tradition, no president can govern against Congress. When Ms Rousseff brandishes her 54m votes in the presidential election of 2014 as a defence, she forgets that they were for Mr Temer too, and that the senators have an equally valid democratic mandate. Brazil has thus offered a tutorial in constitutional theory to the likes of Nicolás Maduro, Venezuela’s dictatorial president. The legacy of a divisive impeachment is not all bad."

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Erros, erros grosseiros e projeções de PIB

Semana passada coloquei a tabelinha abaixo no Twitter, mostrando como a mediana das projeções dos economistas que contribuem com a pesquisa Focus, do Banco Central, costuma errar a projeção do PIB com um ano de antecedência por muito (1,6 ponto percentual, na média do período):


Também semana passada, a Economist publicou uma matéria sobre o mesmo assunto, avaliando o desempenho das projeções feitas pelo FMI. Os resultados também não são muito animadores, como se pode ver no gráfico:


Se projeções e previsões, no geral, erram tão feio, por que ainda há um mercado para elas? Para Tim Harford, projeções são como Pringles: "nobody thinks that there’s any great virtue in them but, offered with the fleeting pleasure of consuming them, we find it hard to resist." Por que? As teorias de Harford:

Possibility one is that the moment we hear a forecast, we imagine it happening. It then becomes a believable outcome and one that is easy to call to mind in the future. The scenario that we imagine looms large in our minds; other scenarios, equally plausible, fade to the background. As a result, we can be sceptical of forecasts in general yet still hooked by a particular one. 
(...) 
Possibility two is that forecasts offer us a lazy way to understand a complex world. The background to the conflict in Syria is complicated. So is Chinese politics. So, too, is the evolution of the Japanese economy. Trying to understand what is going on in any of these places requires an investment of time and attention that most of us are not willing to make. Wise heads at this newspaper could explain the intricacies to you or to me for hours yet barely have begun to do the topic justice.

Sobre o assunto, ainda quero ler o Superforecasting, sobre o Good Judgment Project.